O Perigo que Representa Conviver com o Aedes aegypti

A teoria de convivência com Aedes aegypti é bastante perigosa, pois a história vem relatando os perigos econômicos e sociais que pagaram as sociedades que adotaram esta infeliz teoria. Para refrescar a nossa memória, em 1.977 devido a uma alta infestação pelo Aedes aegypti, o vírus Dengue (sorotipo-1), foi introduzido em Cuba, e com ele uma extensa epidemia de Dengue Clássico, com grande parte da população (45%) afetada por aquele sorotipo, causando grandes prejuízos econômicos e sociais.

Nesse período (1.977-80), predominou a forma benigna da doença. Houve um “certo controle”, digamos relativo, do mosquito vetor com a parada da transmissão, diminuição do número de casos e posteriormente ocasionou o final da epidemia.

O governo cubano achando que a situação estava relativamente controlada, devido os baixos índices percentuais para Aedes aegypti e parada da transmissão do vírus Dengue, resolveu atender outras “prioridades” colocando os trabalhos de combate ao artrópode vetor em plano secundário. Esqueceu que o mosquito mesmo com índices baixos, poderia proliferar e novamente atingir percentuais elevados,

Contudo, no verão de 1.981, o sorotipo-2 foi introduzido em Cuba, determinando o aparecimento do terrível Dengue Hemorrágico, pela primeira vez neste século na história do nosso continente. Este Dengue acometeu grande parte da população cubana com 344.203 casos notificados; 116.144 doentes internados, e 24.000 desses pacientes internados apresentaram a forma hemorrágica (FHD); com 10.000 casos de choque (SSD) e 158 óbitos. Dos óbitos, 101 ocorreram em menores de 15 anos de idade.

O vírus sorotipo-2 que provocou a epidemia cubana de Dengue Hemorrágico, já circulava há um certo tempo pela América Central e do Caribe. Sua entrada em outros países era apenas uma questão de tempo. Por isso, no final de 1.989, houve uma epidemia de Dengue Hemorrágico provocado pelo sorotipo-2 na vizinha Venezuela, provocando dezenas de mortes.

Até o ano 2.000, eram raros os casos de dengue hemorrágico no Brasil, embora muitos indivíduos tenham sido infectados por mais de um tipo de vírus ao mesmo tempo, a freqüência de dengue hemorrágico era mais baixa que o esperado. Com a chegada do vírus DEN3 aumentou muito o número de casos de dengue hemorrágico, com aproximadamente 6% de mortes. Desde 2.005 é esperado o reaparecimento do vírus 4 no Brasil. A reintrodução do vírus 4 no Brasil pode levar a um aumento de casos de dengue hemorrágico em pessoas que já tiveram a infecção pelos vírus DEN1, DEN2 e DEN3.

Ressalta-se mais uma vez, que é necessário combater de forma eficiente o artrópode vetor, por todos os fatores supracitados e também pelo fato de que aqui em nosso Estado, o mosquito começou a se deslocar das áreas urbanas (cidades) e invadir zonas rurais, tais como, vilas, povoados, usinas, sítios e fazendas. Se esta expansão não for contida a tempo, será muito difícil de controlar e impossível erradicar o culicídeo vetor.

Urge, portanto, uma definição política por parte do Ministério da Saúde da necessidade de um controle efetivo e posterior erradicação do Aedes aegypti em nosso país e especialmente no Estado de Alagoas. A capital do nosso Estado, além de ser um grande centro exportador de mosquitos para as cidades interioranas e outras capitais, representa um importante “Pólo Turístico”. Assim sendo, basta chegar um indivíduo infectado por outros sorotipos (sorotipo-2 que já está circulando no Rio de Janeiro, por exemplo) e penetrando numa população suscetível como a nossa, os prejuízos econômicos e sociais seriam imprevisíveis. Tudo isso, sem falar na possibilidade da reurbanização da Febre Amarela que seria uma verdadeira catástrofe nas localidades infestadas pelo culicídeo vetor.

É importante salientar que em julho de 1.988, foi realizado um estudo soroepidemiológico de uma epidemia de Dengue na cidade de Delmiro Gouveia, com uma população de aproximadamente 25.000 pessoas. O principal objetivo era avaliar a dimensão daquela epidemia ocorrida em 1.987. Foram coletadas 567 amostras de sangue da população, dos quais 326 casos foram positivos para flavivírus, com 70 deles positivos para o vírus Dengue, 06 casos positivos para o vírus da Encefalite Eqüina do Leste dos Estados Unidos e os demais para outros flavivírus, necessitando de outros testes adicionais para caracterização definitiva das diversas espécies daqueles flavivírus. Esse trabalho foi realizado pelo Laboratório de Virologia do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Alagoas, pela SUCAM/Al, Escola de Ciências Médicas e Instituto Evandro Chagas/FSESP.

Finalizando, queremos relembrar que prevenir é melhor que remediar, tanto no ponto de vista econômico de gastos com hospitalização, como dos prejuízos sociais acarretados na população enferma. O que aconteceria (e está bem próximo de acontecer se as providências não forem tomadas a tempo) se o sorotipo-2 chegasse em nossa capital, afetando milhares de pessoas, numa cidade em que o serviço de emergência encontra-se fechado há 4 meses? Onde indivíduos esperam horas nas filas dos Postos de Saúde e não são atendidos? Onde os que são atendidos passam mais de um mês e não conseguem fazer exames complementares, precisando fazer particularmente para complementar um diagnóstico? O que aconteceria se o Dengue Hemorrágico grassasse aqui e houvesse necessidade de internar milhares de pessoas nos nossos falidos hospitais?

É necessário que a sociedade assuma definitivamente o seu papel no controle do mosquito transmissor do vírus Dengue, da Febre Amarela Urbana, Chikungunya e outros, pois o Aedes aegypti é capaz de ser infectado na natureza ou laboratorialmente, por 103 arbovírus, 20 filárias e 05 protozoários.

Esses dados devem servir de alerta para que possamos entender cada vez mais, o perigo que representa conviver com artrópodes hematófagos, especialmente este culicídeo fidalgo que chegou de “mala e cuia”, se hospedou nas residências e sem pagar aluguel tem todas as condições necessárias para a sua procriação independente das condições climáticas da regiãopois o mesmo vive preferencialmente no interior das residências ou no peridomicílio sem pagar estadia e a única forma de pagamento é transmitir enfermidades para o homem.

Extrato de um documento enviado para a Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM), com Sede Central em Brasília, intitulado Dengue no Estado de Alagoas, quando fui coordenador do Programa de Controle da Febre e Dengue da Diretoria Regional de Alagoas.

Maceió, 03 fevereiro de 2.009.

Profo Mário Jorge Martins.

Professor Adjunto de Saúde Coletiva da Universidade de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL) – Brasil.