Dengue no Brasil – I

O transmissor dos vírus dengue e da febre amarela urbana, o mosquito Aedes aegypti, é originário da África tendo sido introduzido no continente americano, durante o período de sua colonização; tendo sido reconhecido pela primeira vez no Egito (daí sua denominação); chegando ao Brasil nos navios negreiros, reproduzindo-se nos depósitos de água dos barcos quando daquelas viagens da África para o Novo Mundo.

As primeiras referências ao dengue no Brasil remontam ao período colonial, sendo considerado como epidêmico em 1.846, atingindo vários Estados, como Rio de Janeiro e São Paulo. Em 1.865 foi descrito o primeiro caso de dengue no Brasil, na cidade de Recife. Sete anos depois (1.872), em Salvador uma epidemia de dengue provocou 2.000 mortes. Até 1.916, São Paulo foi atingido por várias epidemias de dengue.

Portanto, desde o século XIX, no Brasil, surtos epidêmicos de uma enfermidade assemelhando-se ao dengue ocorreram de maneira esporadicamente até o início da década de 1.920, quando ocorreu a erradicação do Aedes aegypti, como medida de controle para se acabar com epidemias massivas de febre amarela que grassavam no Brasil naquela época. Mariano (1.917), relata que em 1.846 teria ocorrido epidemia de uma doença denominada polka (devido à maneira de andar do indivíduo que se assemelhava à dança), provocada por mialgias e artralgias, que os enfermos apresentavam.

Segundo o Diário Oficial do Estado de Alagoas, edição de 07/11/1.918 onde o Dr. Pereira Rêgo (Barão de Lavradio), médico de grande renome e epidemiologista da época, no seu esboço histórico das epidemias que ocorriam nesta cidade (Maceió), de 1.830 a 1.870, relatava os sintomas clássicos da doença afirmando “Em 1.852 revestiu-se de todo o cortejo de sintomas clássicos, em que todavia se notou a interferência da doença que reinou pela primeira vez em 1.846, reaparecendo nos dois anos subseqüentes e em 1.851, já menos atenuada para só visitar-nos nos nossos dias (1.918)”.

Trajano Joaquim dos Reis, em 1.896 descreveu os sintomas clínicos durante um surto epidêmico em Curitiba. Tudo indica que epidemias semelhantes tenham ocorrido no Rio de Janeiro por várias vezes durante o século XX. Epidemias semelhantes ocorreram também no Sul e Nordeste do Brasil, associadas com epidemias explosivas de febre amarela. No início do século XX, em 1.903, Oswaldo Cruz, implantou um programa de combate ao mosquito que se prolongou por anos, pois havia o receio, na época, que epidemias de febre amarela grassassem entre nós.

Existem referências de epidemias de dengue no Estado de São Paulo em 1.916. No Brasil, o primeiro trabalho publicado sobre Dengue, foi pelo Dr. Antônio Pedro em 1.923, onde relatou um surto de dengue que vinha ocorrendo no Rio de Janeiro e em Niterói desde 1.922. Em 1.953 foram detectados anticorpos para o vírus sorotipo-1 na Amazônia, e em 1.954 foram relatados casos da doença, porém sem confirmação, na cidade de Salvador.

Durante o final de década de 1.920, ocorreu à erradicação do Aedes aegypti e até 1.981, a enfermidade foi lembrada apenas como acontecimento infeccioso em inquéritos sorológicos. O reaparecimento de epidemias de dengue no Brasil está ligada a reinfestação pelo Aedes aegypti, erradicado mais uma vez no Brasil na década de 1.950, mas voltou a reaparecer em Belém (1.967), Salvador (1.976) e no Rio de Janeiro (1.977).

Com os quatro sorotipos do dengue circulando no Caribe e norte da América do Sul, em julho de 1.981/82 houve um surto de dengue produzido pelos sorotipos 1 e 4 em Boa Vista, capital do então território de Roraima, onde houve aproximadamente 12.000 casos, numa população de aproximadamente 60.000 habitantes. Pela primeira vez na história de nosso país, houve uma epidemia com comprovação clínica e laboratorialmente, sendo realizada uma amostragem sorológica detectando-se 43% de anticorpos na população estudada. Esta epidemia possibilitou o primeiro estudo registrado e documentado clínico e laboratorialmente do dengue no Brasil.

Continuação deste tema na próxima semana…

 

Maceió, 06 janeiro de 2.009.

Profo Mário Jorge Martins.

Professor Adjunto de Saúde Coletiva da Universidade de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL) – Brasil.