O Controle dos Mosquitos

1 – Generalidades – os mosquitos culicídeos são insetos hematófagos, isto é, picadores e sugadores de sangue, especialmente as fêmeas que necessitam desse alimento vital para completar o desenvolvimento ou amadurecimento de seus ovos, necessários para perpetuar a espécie. Além da picada dolorosa e do zunido desagradável que perturba nossos ouvidos, esses insetos podem transmitir numerosos parasitos causadores de enfermidades ao homem.

Existe uma variedade muito grande de mosquitos culicídeos e dentre eles, o Culex quinquefasciatus, também conhecido como muriçoca comum, pernilongo, carapanã, e outros, destaca–se pelo fato de ser uma espécie cosmopolita, uma vez que se encontra distribuído praticamente por todo o mundo. Por ter uma enorme plasticidade e capacidade de adaptação mais do que qualquer outra espécie de mosquito, convivendo com o homem, aproveitando–se do incremento da urbanização e consequente industrialização.

Dessa maneira, ele adaptou–se muito bem as águas servidas (domésticas, industriais,  pluviais e outras) que pelo seu variado grau de poluição, apresenta uma variedade muito grande de nutrientes necessários para o desenvolvimento de sua fase larvária. Como se isso não bastasse, possui uma grande plasticidade genética e fisiológica; qualidades que possibilitam uma grande capacidade de resistência aos inseticidas.

Devido as essas características supracitadas, combater este vetor se reveste de uma importância extraordinária, principalmente no que diz respeito ao seus grande potencial biótico e ao mesmo tempo em que desempenha um importante papel  como transmissor de agentes patogênicas, entre eles a Wuchereria bancrofti, agente etiológico da filariose humana. Além disso, sua presença em alta densidade acarreta um certo desconforto, provocando o dispêndio de avultadas verbas em atividades de controle.

2 – Biologia – como já citado de todos os mosquitos existentes, o Culex quinquefasciatus é aquele que melhor encontra–se adaptado e por isso, o  mais comumente encontrado  no meio o qual circula o homem, chegando mesmo em alguns locais a sua formas larvária estar presente em 100% dos criadouros, em função de sua  plasticidade ecológica e a capacidade de  expansão de  seus habitats. Esses criadouros são dos tipos mais variados possíveis, encontrados tanto no interior das residências quanto no peridomicílio. Essas coleções hídricas (criadouros) podem variar desde depósitos artificiais que são muito utilizados pela nossa sociedade de consumo, os chamados recipientes descartáveis, passando por pequenas e médias coleções de águas paradas (poças d’água) e procriando em locais dos mais variados possíveis, tais como caixas d’água, tanques, toneis, pneus, cacos de garrafas, recipientes plásticos, entre inúmeros outros.

Além disso, a muriçoca comum desenvolve–se também suas larvas desde os criadouros com águas aparentemente limpas, passando por coleções altamente poluídas e chegando mesmo a se desenvolver e fossas estouradas (abertas ou mal fechadas). Esses criadouros de água poluída apresentam abundante material orgânico e resíduos em franco processo de fermentação (putrefação), constituindo–se em coleções hídricas de odor pútrido. Ainda como criadouros para esta espécie, têm–se as valas de escoamento de águas servidas domésticas ou industriais, as galerias de águas pluviais, os efluentes dos tanques sépticos, os esgotos, entre inúmeros outros. Essas coleções líquidas de aspecto sujo possibilita uma certa proteção contra os raios solares, funcionando dessa forma como um filtro protetor e consequentemente provoca um abaixamento da temperatura  que não alcança níveis elevados em locais próximos a superfície, como também em regiões  mais profundos (em casos de coleções hídricas maiores).

As fêmeas depositam seus ovos na superfície líquida, perfazendo mais ou menos uma centena para cada postura. Após a eclosão, emerge uma larva que se movimenta frequentemente e cuja alimentação é encontrada no próprio criadouro, sendo constituída essencialmente por bactérias, microorganismos diversos e resíduos orgânicos. Em níveis adequados de temperatura o desenvolvimento larvar se completa dentro de 8 a 10 dias, passando inicialmente pela larva do primeiro, segundo, terceiro e quarto estágio; pupa (que não se alimenta) e posteriormente, a forma alada adulta sai do interior desta última fase larvar.

Os adultos possuem hábitos fundamentalmente noturnos e estão frequentemente penetrando nas residências, onde encontram abrigo e alimentação. Os machos se alimentam geralmente de néctar e substâncias afins e as fêmeas de sangue humano, elemento imprescindível para a maturação dos seus ovos, conforme relatado. Durante o período diurno, os mosquitos podem se abrigar em locais frequentemente sombrios ou mesmo escuros, tais como sótãos, porões, atrás de móveis, quadros, canis, galinheiros, estábulos, entre inúmeros outros.

3 – Medidas de Controle:

3.1 – Introdução – no período anterior à descoberta dos inseticidas residuais sintéticos no final de década de 1.930 e início da década de 1.940, inúmeros métodos foram utilizados para o controle de mosquitos sendo adotados em várias partes do mundo, com diferentes graus de sucesso. O sucesso da campanha contra o Anopheles gambiae no Nordeste do Brasil no final da década de 1.930, através de um convênio Ministério da Educação e Saúde com a Fundação Rockefeller em l.939, foi realizado com a associação de várias medidas, especialmente o uso do piretro contra as forma adultas e de “verde de paris” contra as formas larvárias.

Com a descoberta ou síntese de novos inseticidas possibilitou uma verdadeira revolução na controle metodologia de vetores de enfermidades, principalmente dos mosquitos, possibilitando uma melhor padronização.  Pela primeira vez na história da Saúde Pública foi possível, em diversos países e localidades, controlar de maneira eficaz, algumas enfermidades por eles veiculadas. O uso dos chamados inseticidas sintéticos vem sendo cada vez mais incrementado, progressivamente, e atualmente continua ainda sendo o principal suporte dos programas de combate e controle de insetos vetores de agentes patogênicos.

Inseticidas organoclorados, organofosforados, carbamatos e piretroides vêm sendo largamente utilizados em diversas regiões do planeta para o controle de vetores. O DDT (dicloro–difenil–tri–cloro–etano), embora sua utilização tenha sido proibida pela OMS, devido aos malefícios que podem causar nos organismos animais, é ainda bastante utilizado em algumas regiões pobres do mundo, por causa de seu preço que é relativamente barato e os países pobres não podem adquirir os piretroides sintéticos que são extremamente caros. Trata–se de um produto relativamente barato, com elevado poder residual, moderadamente tóxico e de baixa absorção cutânea. Entretanto, não é biodegradável, com efeito, acumulativo em tecidos gordurosos animais (aves e mamíferos); podendo interferir na “bomba de sódio e potássio”, inclusive foi comprovado através de experimentos o seu poder carcinogênico em camundongos.

3.2 – Resistência aos Inseticidas – a história dos inseticidas modernos começa com o DDT [1,1,1–tricloro–2,2–bis (p–clorofenil) etano], o mais conhecido de todos os inseticidas, foi sintetizado pela primeira vez, em 1.874, na Alemanha. Sintetizado por acaso, pelo químico Zeidler, permaneceu esquecido por mais de meio século, até que no período l.936–39, se descobriu a sua propriedade inseticida, sendo introduzido de início no comércio com o nome de Neocid, pelo químico suíço Paul Muller.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o DDT foi utilizado pelo exército americano para desinsetização em seus acampamentos e trincheiras, especialmente no combate aos piolhos que grassavam naqueles locais. Comprovada a sua eficácia como inseticida durante a Segunda Grande Guerra, ao término desta (1.945–46), o DDT foi utilizado pela primeira vez em aplicações intradomiciliares, com o objetivo de combater a malária e outras enfermidades transmitidas por insetos hematófagos.

Dessa maneira, ficou comprovado inicialmente que esse inseticida organoclorado era potencialmente letal para a grande maioria dos insetos, permanecendo ativo durante muito tempo nas superfícies aplicadas. Inicialmente a euforia produzida pelo sucesso imediato alcançado, chegou–se a pensar que as doenças veiculadas pelos artrópodes hematófagos era um problema resolvido, devido a uma possível erradicação deles.

Graças ao efeito residual do DDT, foi possível disseminar as Campanhas de Erradicação da Malária, em muitos países do mundo, sob o patrocínio da recém criada (1.948) Organização Mundial de Saúde (OMS). A eficácia da ação residual desse organoclorado em tratamento intradomiciliares foi baseada no hábito do mosquito anofelino de repousar nas paredes e outras superfícies internas das residências, permanecendo aí entre um repasto sanguíneo e outro, ou durante todo o dia. Dessa maneira, o uso do DDT rompia a cadeia de transmissão, pois o mosquito era impedido de levar os plasmódios de um paciente doente para um outro sadio.

Entretanto, em 1.946 ainda no calor da euforia, começou o aparecimento de moscas e mosquitos resistentes às primeiras aplicações desse organoclorado e assim, tornando sua ação ineficaz. Com a descoberta das propriedades inseticidas do DDT e em seguida com o aparecimento de espécies de insetos refratárias, foi um passo para se pesquisar novos compostos de natureza química similar ou não a esse inseticida, de modo que pudesse eliminar os insetos resistentes.

Na década de 1.950 começou a aumentar cada vez mais o número de espécies que apresentavam resistência aos organoclorados, com algumas delas se refazendo do golpe sofrido, com suas populações voltando a crescer, atingindo a patamares anteriores. Assim, alguns insetos daninhos resistentes aos inseticidas de então, começaram a proliferar e atacar as culturas, produzindo grandes estragos na agricultura, especialmente por causar o desequilíbrio ecológico produzido pela eliminação de seus inimigos naturais.

Por causa desse fenômeno de resistência dos organoclorados (DDT, BHC e similares), os pesquisadores tentaram descobrir ou sintetizar novos compostos químicos com propriedades inseticidas, aparecendo dessa maneira os organofosforados (Malathion, Fenitrothion e congêneres), os carbamatos (Isolan, Pirolan e outros), os dinitrofenóis, e mais recentemente, os piretroides sintéticos (Deltametrina, Cypermetrina e afins).

À luz dos conhecimentos atuais, praticamente quase todas as espécies de artrópodes hematófagos são resistentes a um ou mais tipos de inseticidas e nesse caso, o gênero Culex é um dos que vem apresentando este tipo de fenômeno, devido a sua enorme capacidade plástica, convivência com o homem, e por causa disso vem sendo selecionado com o tempo pelas borrifações realizadas nas residências ou próximas a elas.

Além disso, o pernilongo é o mosquito que rapidamente mais desenvolve resistência aos inseticidas, inclusive aos mais modernos, sendo o primeiro a apresentar este fenômeno já em 1.948, devido a sua propalada plasticidade genética, e por todos os motivos já expostos. De lá para cá, várias tentativas foram feitas com o uso de inseticidas e os resultados são os mais desanimadores possíveis.

Tudo leva a crer que esta resistência foi selecionada ao longo do tempo pelo fato de que as primeiras borrifações terem sido realizadas no interior dos domicílios e sendo este mosquito altamente domesticado, o contato permanente com os mais variados inseticidas (DDT, BHC, Carbamatos, piretroides e outros) selecionou dentro da espécie aqueles mais resistentes. Isto, naturalmente, aconteceu também com outras espécies de mosquitos e outros artrópodes hematófagos.

Durante o período 1.988/91 em que permaneci na coordenação do Programa de Controle da Febre Amarela e Dengue da Diretoria Regional da SUCAM–AL, observamos o aumento cada vez maior da resistência do gênero Culex sp a organofosforados, especialmente ao Malathion UBV, utilizado no carro “FUMACÊ”.

3.2 – Combate aos Mosquitos:

3.2.1 – Combate aos Adultos – recentemente, tem–se verificado que os mais eficientes inseticidas no combate aos mosquitos em geral são os piretroides sintéticos, especialmente, a Deltametrina e Cypermetrina, entretanto, são extremamente caros. Além disso, não é interessante fazer uso de inseticidas na forma de nebulização (carro “fumacê”, termo utilizado de forma inadequada, pois não se forma um fumaça, mas uma pulverização onde se forma uma névoa), primeiro porque o veneno agride a saúde das pessoas e provoca estragos incalculáveis no ambiente, e em segundo lugar, porque quando se nebuliza com o veneno só atinge (quando atinge) os adultos, deixando as formas larvárias intactas que continuam a se reproduzir. Traduzindo, isso é como numa guerra, a artilharia ajuda, mas que ganha a batalha é a infantaria que ocupa e nesse caso, quem resolve o problema da proliferação dos mosquitos é o tratamento e eliminação dos criadouros. Portanto, o uso de inseticida ultra–leve–volume  (ULV) ou ultra–baixo–volume (UBV) só deve acontecer em casos de epidemias de Dengue ou Febre Amarela Urbana ou quando os índices larvários estão muito altos, o resto é jogar inseticidas e o dinheiro do contribuinte  fora, bem como, cada vez mais se  contribui para agredir a Natureza ou  Ambiente.

3.2.2 – Combate Larvário – o combate aos mosquitos transmissores de doenças na sua fase imatura deve ser encarados sob três aspectos que consideramos fundamentais:

3.2.3 – Tratamento ou Eliminação dos Criadouros – sendo que os principais criadouros do gênero Culex estão situados no solo e em sua maior parte é produzida pelo inadequado destino que se dá aos dejetos e águas servidas, torna–se lógico afirmar que as obras de engenharia sanitária diminuirão tais possibilidades.

Portanto, deve–se eliminar, tanto no ambiente domiciliar, especialmente no urbano, qualquer coleção líquida desprotegida. Nesse caso, eliminam–se os buracos ou depressões de construções paralisadas (inacabadas), os banheiro e tanques entupidos, sarjetas mal construídas ou danificadas, galerias entupidas e qualquer tipo de obstáculo por onde a água servida possa ser eliminada.

No ambiente doméstico, deve–se eliminar qualquer tipo de depósito que possa conter água parada, especialmente os recipientes artificiais, eliminados pela nossa sociedade de consumo, que na maioria dos casos se constituem nos principais criadouros de larvas do pernilongo e de outros cuclicídeos.

O tratamento, propriamente dito deve ser realizado, periodicamente, ou seja, a cada 3 meses, de casa em casa, tratando com substância larvicidas os criadouros que não podem ser eliminados e destruindo aqueles desnecessários, bem como orientando a população para ajudar na tal prática, não acumulando depósitos em casa ou colocando–os em terrenos baldios; enfim um trabalho de educação permanente.

Resumindo, o ponto fundamental no combate a este culicídeo é a redução drástica ou eliminação dos potenciais criadouros, que é feita através de medidas de saneamento. Com isso, dá–se um destino adequado para as águas superficiais, evitando a poluição delas através do destino adequado para os dejetos, águas servidas e resíduos de toda espécie. Desse modo, pode–se obter resultados eficazes e duradouros no combate a cosmopolita muriçoca, como também outros mosquitos transmissores de várias enfermidades.

3.2.4 – Saneamento Ambiental – é a mais importante medida de combater e controlar o vetor na sua fase larvar devendo–se levar em consideração que seus resultados somente serão obtidos a médio e longo prazo. Conforme descrito no início deste texto, o Saneamento Ambiental subdivide–se em: Saneamento Básico, de responsabilidade do poder público e Saneamento Domiciliar, de responsabilidade dos cidadãos ou de grupos familiares. Este último tipo de Saneamento visa melhoraras condições de higiene ao nível residencial, sob a responsabilidade de seus moradores, especialmente do chefe de família. Aqui se deve levar em consideração que a residência do cidadão não está isolada do ambiente, por isso todos devem ter a obrigação de mantê–lo limpo, pois o ambiente é a continuação da nossa moradia.

3.2.5 – Educação Sanitária – é perfeitamente entendível que os nossos problemas sanitários e especialmente o combate ao Culex quinquefasciatus, passa por um trabalho profundo de Educação das Massas, ao lado do desenvolvimento do Saneamento Ambiental e melhoria geral das condições sociais, elementos imprescindíveis para elevar o padrão sanitário da população.

Embora a Educação Sanitária praticamente nunca foi levada em consideração pelas autoridades (até porque ele depende de uma educação global, elemento escasso em nosso País), ela deve ser realizada em todos os níveis com a participação ativa dos responsáveis pelas políticas públicas e administradores públicos e privados deste país.

Nota – este texto é, na realidade, uma breve introdução, por isso queremos esclarecer aos interessados no assunto, que para obter o texto na íntegra (total), pode consultar a nossa loja virtual e solicitá-lo, que atenderemos todos os pedidos e enviaremos os mesmos pelos Correios e Telégrafos; portanto, entre em contato conosco através dos nossos telefones ou e-mails.

Autor: Mário Jorge Martins.

Clínico Geral, Epidemiologista, Laboratorista, Administração, Assessoria, Consultoria, Treinamentos para todos os profissionais da área de saúde e Planejamento em Saúde.

Prof. Adjunto de Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL).

Mestre em Parasitologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Diretor do Setor de Epidemiologia da SUCAM, no período 1.987 a 1.990.

Coordenador do Programa de Controle de Febre Amarela e Dengue (PCFAD) no período de 1.987 a 1.990.

Criou e Coordenou o Programa da Esquistossomose de Maceió–AL, no período de  1.993 a 1.998; sendo considerado o melhor Programa da Esquistossomose do Mundo pela Organização Mundial de (OMS).

Médico da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA).

 

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