Noções de Bioestatística

1 – Estatística:

1.1 – Definição – do ponto de vista etimológico a expressão estatística vem do latim “status” que significa no “sensu lato” o estudo do Estado. Tudo indica que os alemães (Busching, 1.724 –1.793) foram os primeiros pesquisadores a utilizar essa terminologia (embora Achenwall tenha utilizado também este termo, conforme será visto adiante), que posteriormente o seu uso foi disseminado pela Itália, França, Inglaterra e com a perpassar dos tempos, por outros países. Segundo Lavasseur, a Estatística é “o estudo numérico dos fatos sociais” e para Yule, ela é considerada como “dados quantitativos afetados, marcadamente, por uma multiplicidade de causas”.

Existem autores que consideram e encaram a estatística como ciência e outros definem como método. No entanto, ela deve ser considerada como um método de estudo aplicado a várias ciências.

1.2 – Histórico – não é nada fácil para o pesquisador rebuscar a História para se cientificar o exato momento em que apareceu e se utilizou a Estatística, pois assim como as demais áreas do conhecimento humano, ela não apareceu de repente, do nada, mas sim, paulatinamente, foi se desenvolvendo devido à necessidade que o homem antigo sentia em numerar pessoas e objetos ou coisas que lhes eram indispensáveis a sua subsistência ou atividades bélicas.

Embora do ponto de vista científico o desenvolvimento da Estatística seja relativamente recente, no entanto, há milhares de anos o homem utilizou esse conhecimento para satisfazer algumas de suas necessidades, como é o caso, por exemplo, dos levantamentos populacionais (como o censo executado pelos romanos na época do nascimento de Jesus Cristo), ou Censos, que foram realizados pela humanidade a partir das cidades–estado da Grécia antiga e que objetivamente verificava a capacidade militar delas, especialmente Esparta que era uma cidade guerreira. Dessa maneira, os primeiros registros estatísticos foram de pessoas (sendo registrados principalmente adultos do sexo masculino, devido à finalidade de guerras), animais (especialmente cavalos) e armas.

Posteriormente, foi observado o quanto era importante o número de habitantes sob o ponto de vista de arrecadação de impostos para os governantes, visto que, para cada um deles era taxado de forma comum certos tributos e, portanto, para estimar a receita total do Estado havia a necessidade de se ter o recenseamento da população. Por causa disto, a etimologia do termo estatística está associada à raiz stat (ou “estat”) e no stricto sensu significa “coisas do estado” ou “notícias do estado”. O conceito de estatística como se conhece modernamente, é relativamente recente, pois no início do século XVIII foi utilizado pela primeira vez por Godofredo Achenwall (1.719–1.722), tal como se emprega nos dias atuais, em documentos referindo–se às informações acerca do Estado. Por esta razão, Achenwall é considerado “o Pai da Estatística”.

Na realidade, algum tempo antes, outros autores já se haviam dedicado aos estudos fenômenos estatísticos sem, contudo reuni–los num corpo de doutrina. São encontradas referências a Politano (1.627), Petty (1.623–1.687) e Juan Graunt (1.620–1.674) sendo que estes dois últimos publicaram, na Inglaterra, a monografia intitulada: “Aritmética Política”. Outros autores, com Cristian Huygens (1.621) e J. Bernouille colaboraram para o estudo da aplicação da teoria das probabilidades a organização de tábuas de vida, assim como, em outros setores do conhecimento humano.

Sansovino contribuiu também com sua parcela para o estudo dos fenômenos estatísticos. Quetelet (1.835) que chefiou o Serviço de Estatística, na Bélgica, deu grande impulso à aplicação desse método a antropometria, criando o conceito de “homem médio”. Galton estudou os fenômenos da variação a luz da matemática e Gauss estabeleceu as bases da aplicação da curva do erro. William Farr (1.807–1.883), citado por Leser, foi um incansável pesquisador no campo da Estatística Médica.

Voltando ao passado distante, antes de Cristo, foi constatado o encontro de hieróglifos nas pirâmides egípcias, nos quais foram relatados fatos de natureza estatística. O próprio Moisés organizou o censo de sua população por ocasião de sua fuga do Egito a caminho da “Terra Prometida”. Existem referências no Novo Testamento com relação ao recenseamento, cujo texto diz o seguinte: “Naqueles dias saiu um decreto da parte de César Augusto, ordenando o alistamento de todo o mundo habitado. Este primeiro recenseamento foi realizado por Cyrino (Quirino), governador da Síria. Todos iam alistar–se, cada um à sua própria cidade (Lucas, cap. II, vers. I). Este alistamento foi realizado na Judéia, por ocasião do nascimento de Jesus Cristo.

A primeira estatística da população de Nüremberg foi em 1.749, citada por Schott. Na Itália e Espanha as primeiras descrições estatísticas aparecem no século XVI e no período compreendido entre 1.624 e 1.640 foram publicados estudos estatísticos de Jan de Laet, denominada “Republique Elzevirianae”. A primeira obra utilizada como estatística de saúde foi “Natural und polítical observations upon the bills of mortality”, de John Graunt, no ano de 1.662. A primeira tabela sobre mortalidade foi registrada e publicada em 1.693 por Halley. Na Alemanha ocorreram censos em várias cidades alemães, no final da primeira metade do século XVIII e, em 1.747 é iniciado, na Suécia, um levantamento estatístico de caráter regular. Coube ao dinamarquês Anchersen, em 1.741, fazer a primeira exposição estatística utilizando tabelas, permitindo assim, a reorganização do trabalho de descrição de dados. Em 1.782, em Giessen, Crone emprega pela primeira vez as representações gráficas. Em 1.790, por mandato da Constituição, os Estados Unidos realizaram o seu primeiro censo populacional, sendo repetido a cada dez anos.

Posteriormente, os paises mais desenvolvidos utilizaram a estatística com certa regularidade A Satatistical Society foi fundada em 1.843, em Londres e nos anos seguintes, na Alemanha, foram realizados diversos tipos de censos (industriais, profissionais, comerciais, etc.). O Instituto Internacional de Estatística foi fundado em 1.885. É interessante se notar que em todos esses estudos, sempre preponderou à estatística de observação ou estatística descritiva, cuidando basicamente da organização das informações. No século passado (Século XX) houve um grande progresso no que diz respeito à estatística. Muito se devem aos trabalhos de Pearson, Galton e Yule, na Inglaterra, a Whipple, Bliss e Pearl, na América do Norte. No Brasil, se destacaram Bulhões de Carvalho, Felipe Carneiro, Teixeira de Freitas, Martara, entre outros. Na área da Estatística Vital, no Brasil, destacam–se E. Jansen de Mello, J. P. Fontenelle.Linconl de Freitas Filho, Martinus Pawel, Scorzelli Junior, entre outros.

A estatística ganha um novo status quando se alia ao ramo da matemática, conhecido como Teoria das Probabilidades, e passa então a tratar dos erros decorrentes da chamada ciência indutiva. A partir deste momento, torna–se uma ferramenta importante nos diversos ramos da ciência em que este mecanismo de conhecimento é utilizado, e observado nos currículos de diversos cursos, como a Medicina, Engenharia, Economia, Administração, Física, Psicologia e outros.

1.2 – Divisão – a estatística pode ser dividida da seguinte forma:

1.3 – Estatística Geral – é aquela que estuda e utiliza o método estatístico como instrumento cientifico de investigação constituindo a Metodologia Estatística. E assim, compreendida, seu campo de atuação é, por assim dizer ilimitado, e por isso mesmo, trata–se de uma concepção unicista.

1.4 – Estatística Especializada – neste caso, a aplicação do método estatístico, vincula–se a um determinado ramo científico, como ocorre no Biologia, Economia, Educação, Epidemiologia, Genética, Higiene, Sociologia, entre outros. Neste caso, a estatística, recebe a denominação de Bioestatística (Estatística Vital), Social, Econômica, Educacional, Sanitária, entre outras. A Estatística pode ainda ser dividida assim:

1.5 – Estatística Descritiva – encarrega–se do levantamento, organização e descrição dos dados em tabelas, gráficos ou outros recursos visuais, além do cálculo de parâmetros representativos desses dados.

1.6 – Estatística Analítica – esta parte trabalha com os dados de forma a estabelecer hipóteses em função desses dados, procedendo a sua comprovação e, posteriormente, elabora as conclusões científicas.

1.7 – Estatística de Planejamento – refere–se, basicamente, à otimização estatística das ações postuladas em função das conclusões obtidas na fase analítica, Esta arte é denominada Teoria da Decisão Estatística ou Estatística Bayesiana.

1.8 – Bioestatística:

1.9 – Definição – a estatística é à parte da matemática aplicada que trata da coleta de dados observados. É, portanto, um conjunto de métodos usados para se analisar dados. Estudando os mais variados fenômenos das diversas áreas do conhecimento, ela apresenta um valioso instrumento de trabalho nos dias atuais. A Bioestatística é a aplicação da estatística em ciências biológicas e em medicina, ou seja, estuda os processos referentes à vida (aspectos vitais).

Numa visão Macro ela se identifica fundamentalmente com aspectos relativos ao planejamento e ações de Saúde Pública, constituindo–se, portanto, numa ferramenta indispensável para disciplinas dos cursos de Medicina, Odontologia, Enfermagem e outros afins, tais como Epidemiologia, Saúde Coletiva (Saúde Pública), Organização de Sistemas e Serviços de Saúde, entre outros.

Numa visão Micro a estatística esta intimamente relacionada com pesquisa laboratorial e de campo. Neste caso, ela encontra–se altamente relacionada com as disciplinas básicas, como Bioquímica, Fisiologia, Imunologia, Farmacologia, Microbiologia e Parasitologia, entre outras, assim como também com outras disciplinas clínicas como a Clínica Médica, Pediatria, Cardiologia, Pneumologia, Neurologia, Psiquiatria, Ortopedia, Otorrinolaringologia, Gastroenterologia, entre inúmeras outras. Em todos esses casos, a presença da estatística torna–se uma ferramenta imprescindível para a grande maioria das publicações de artigos científicos das revistas especializadas e assim facilitando bem a compreensão do leitor.

Algumas técnicas estatísticas ou mesmo procedimentos de análise são comuns a qualquer área de estudo. Por exemplo, é usual organizar os dados em quadros e ilustrar os resultados usando tabelas e gráficos. Entretanto, certas técnicas são específicas ou mais comuns em determinadas áreas. Existem algumas especificidades da análise estatística de dados biológicos.

1.10 – Importância de Bioestatística – sem dúvida alguma, os métodos estatísticos são fundamentais quando do estudo de situações onde as variáveis que interessa ao pesquisador estão sujeitas, inerentemente, a flutuações aleatórias, como é o caso de estudos na área da Medicina. Nesse caso, mesmo que tomemos um grupo de pacientes homogêneos, sempre se observa grande variabilidade, como por exemplo, no tempo de sobrevida após um tratamento adequado. Ressalte–se também que algumas várias dosagens bioquímicas e componentes hematológicos flutuam não só entre indivíduos, assim como no mesmo indivíduo em épocas ou situações diferentes. Como exemplo disto, basta dosar a glicemia pré e pós–prandial num mesmo indivíduo para obtermos resultados diferentes. Na realidade, existem variações entre indivíduos diferentes para todo a qualquer variável de interesse médico e, portanto, para estudos de problemas clínicos, é necessário uma metodologia que seja capaz de tratar a variabilidade de forma racional, e disto se encarrega a Bioestatística.

Conforme já visto, a questão da necessidade do conhecimento de Bioestatística pelo profissional que trabalha na área de Ciências Biológicas e da Saúde será discutida a seguir. Os profissionais que trabalham na área de saúde, especialmente o médico, têm necessidade de aprender novos métodos terapêuticos, de conhecer os progressos realizados nos diagnósticos e técnicas cirúrgicas e para isto deve ter acesso às publicações dos congressos médicos e de estudos de revistas especializadas. Assim, ele deve ter a capacidade de aproveitar os resultados obtidos por outros investigadores e de selecionar dentre de uma grande massa de informações aquelas que terão real valor. É importante saber quando uma determinada variação é normal ou patológica e qual é o intervalo de confiança ou de variação normal.

A evolução do qualitativo para o quantitativo ocorreu em todas as áreas das ciências (conhecimento humano). A sofisticação da tecnologia, através do aparecimento de aparelhos cada vez mais modernos, muito dos quais computadores permitiram a quantificação de muitos fenômenos. Como conseqüência, toda a massa de dados produzidos em qualquer pesquisa necessita ser analisada adequadamente para o entendimento do fenômeno estudado. De uma maneira geral, os resultados de uma pesquisa, seja ela simples ou complexa, devem ser analisados para que seja possível obter conclusões ou pelo menos hipóteses possam ser levantadas.

Existe uma tendência cada vez maior da quantificação dos fenômenos biológicos. Além disso, é freqüente observar–se grande variabilidade do material biológico. Por exemplo, réplicas observadas sob as mesmas condições experimentais podem apresentar respostas diferentes e os resultados de um mesmo experimento realizado em ocasiões diferentes podem não ser idênticos. Em geral, a variação encontrada em uma mesma amostra é menor do que a variabilidade entre amostras.

Maceió, Junho de 2.009.

Mário Jorge Martins.

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