Microbiota Normal do Corpo Humano e Enfermidades

1 – Introdução – os micróbios são seres vivos bastante antigos e estão em todos os ambientes da biosfera: no solo, no meio dulcícola (água doce) e no ambiente marinho, no fundo do oceano e no ar. Diuturnamente, se come, se bebe e se respira esses microorganismos, no entanto, mesmo com sua aparente presença, raramente eles invadem o organismo humano, multiplicam–se e produzem infecções em humanos; e mesmo quando eles provocam alguma infecção, esta é algumas vezes tão discreta que não produz sintomas. Na realidade, uma quantidade relativamente pequena de micróbios é capaz de causar doença. Muitos deles vivem normalmente na pele, na boca, nas vias respiratórias, no intestino e nos órgãos genitais (especialmente na vagina). O fato de um microorganismo permanecer como um companheiro inofensivo em seu hospedeiro humano ou invadi–lo e causar enfermidade depende de sua natureza e das defesas do nosso organismo, como será visto adiante.

As membranas mucosas dos animais são normalmente colonizadas por uma microbiota vasta e diversificada. Estes seres unicelulares relacionam–se constantemente entre si e com o hospedeiro, numa luta competitiva pela sobrevivência, que sob determinadas condições podem estabelecer infecções, assunto este que será discutido também, juntamente com os diversos aspectos destas interações.

A expressão “microbiota normal” refere–se à população de microorganismos que habita a pele e as mucosas de pessoas consideradas sadias. A existência de uma microbiota viral normal nos seres humanos é duvidosa, embora alguns vírus possam colonizar o organismo humano em pequenas quantidades.

Uma observação pertinente que deve ser colocada aqui se refere à terminologia aplicada com relação à expressão flora normal do organismo e microbiota, no que diz respeito aos estudos modernos. Antes da década de 1.970, os seres vivos eram considerados animas ou vegetais. Os animais se subdividiam em protozoários (considerados “primeiros animais” e que englobavam todos os serem considerados animais de apenas uma única célula, como a ameba, o paramécio, o balantídio, entre outros) e os metazoários (animais possuidores de várias ou inúmeras células, como as aves, os peixes, os mamíferos em geral, etc.). Entre os vegetais existiam protófitos (vegetais possuidores de apenas uma célula: as algas unicelulares como os dinoflagelados e as diatomáceas, o principal constituinte do fitoplâncton); e os metáfitos (vegetais formados por numerosas células, como a sequóia, o eucaliptos, a jaqueira e outros). Os vegetais também eram classificados como clorofilados (possuidores do pigmento verde clorofila, responsável pelo fenômeno de maior transformação bioquímica do planeta, conhecido como fotossíntese) como o abacateiro, a mangueira, o coqueiro, entre outros e os aclorofilados, isto é sem clorofila. Neste último grupo estavam inseridas as bactérias e os fungos. No entanto, houve modificações na taxionomia dos seres vivos e de acordo com certas características morfológicas, bioquímicas e fisiológicas os organismos vivos foram colocados em 5 grandes reinos: Monera, Protista, Fungi, Animalia (Metazoa) e Plantae (Metaphyta). Portanto, as bactérias já não pertencem mais ao reino vegetal há aproximadamente quatro décadas e sim ao reino monera, juntamente com as algas azuis ou cianofíceas. Por isso, o termo flora bacteriana é arcaico, ou seja, em desuso, antiquado ou obsoleto. Como as bactérias, juntamente com os vírus e os fungos microscópicos estão incluídos na categoria de seres microscópicos, a melhor denominação seria utilizar a terminologia microbiota que englobaria o conjunto desses três microorganismos. Dessa maneira, pode–se utilizar sem sombra de dúvida as expressões microbiota bacteriana, microbiota fúngica e microbiota vírica.

Outro tipo de observação que deve ser colocado em tela é a de que não existe vácuo biológico, pois os vários fatores como, espaço, alimentos, mudanças climáticas, pH, entre outros, favorece o ou não o estabelecimento de uma determinada espécie. Por exemplo, em ecologia, quando se estudam as diversas populações observa–se que espaço e alimentos são fundamentais para a homeostase ou equilíbrio dos indivíduos. Assim, analisando–se hipoteticamente uma população em homeostase de 100 ratos distribuídos num certo espaço (8 m2) e após uma redução pela metade (4 m2) automaticamente vai haver uma redução também pela metade da citada população, ou seja, para 50 indivíduos. Ao contrário, se aumentarmos para 16 m2 o citado espaço, a população de ratos aumentará para 200 indivíduos, através do aumento da reprodução, sendo esta a razão de não existir vácuo biológico, pois outros indivíduos se estabelecem no novo espaço. Com relação à alimentação o raciocínio deve ser o mesmo, pois se 10 kg de alimentos mantiver a população supracitada em homeostase por um determinado tempo, ao se reduzir para 5 kg à ração, automaticamente também se reduzirá para 50 elementos a tal população. Porém, se fornecermos 20 kg de ração para este mesmo grupo populacional, ele vai aumentando paulatinamente até entrar em equilíbrio com 200 indivíduos. Portanto, o raciocínio utilizado para o aumento ou diminuição do espaço deve ser levado em consideração, tanto quanto o aumento ou diminuição do aporte de alimentos na citada população. Desse modo, esses são apenas dois aspectos fundamentais para o aumento ou diminuição de uma certa população em equilíbrio, visto que existem outros fatores que se encontram sempre presentes como presença de certos elementos químicos, competidores, predadores, concentração hidrogeniônica (pH), isolamento geográfico, entre outros fatores.

No caso da microbiota normal do organismo que está em equilíbrio dinâmico, qualquer fator que possibilite o aumento da microbiota anormal, determina a diminuição da microbiota normal, bastando para isso uma alteração de um dos elementos citados.

Um outro aspecto que deve ser colocado para se entender certas enfermidades produzidas pela microbiota normal e anormal do corpo humano é que qualquer microorganismo fora do seu habitat natural pode ser considerado patogênico, pois em um ambiente pode mudar certos fatores físicos e químicos ambientais, quantidade hídrica, nutrientes, pH, competidores, entre outros. Esses fatores podem facilitar o desequilíbrio ecológico (homeostático), facilitando ou dificultando o desenvolvimento e multiplicação deles. A tendência, nesse caso, seria facilitar a sua proliferação, pela falta de competidores, e outros fatores que possibilitam o desenvolvimento, conforme visto.

2 – Origem da Microbiota Normal – a criança intra–útero é normalmente estéril, entretanto logo ao nascer é rapidamente colonizada, albergando por toda a sua vida uma microbiota abundante e variada em determinados locais do organismo. A colonização do ser humano pelas bactériascomeça quando o recém–nascido está atravessando o canal do parto. Dentro do útero materno, ele é estéril e durante a passagem, vai adquirindo as bactérias da genitora.

As bactérias que compõem a microbiota natural do organismo demoram cerca de um ano para se instalarem e por volta de dois anos ela estará totalmente estabelecida, acompanhando o indivíduo pelo resto de sua vida. Por isso, no primeiro ano de vida, a criança não possui resistência contra o ataque de alguns.

Essa microbiota bacteriana normal altera–se continuamente ao longo da vida. Os organismos constituintes presentes em qualquer época da vida do individuo refletem a idade, nutrição e ambiente do individuo em questão. Portanto, é bastante difícil definir precisamente a microbiota normal porque ela é determinada fundamentalmente pelo ambiente. Isto pode ser muito bem ilustrado a partir de dados obtidos com astronautas da NASA que, por terapia com antibiótico antes de seus vôos espaciais, tornaram–se relativamente estéreis do ponto de vista bacteriológico e, com apenas seis semanas após o vôo, reconstituída a microbiota normal, constatou–se que as espécies encontradas eram exatamente as mesmas. De maneira semelhante, crianças aparentemente saudáveis nos países em desenvolvimento tem a microbiota intestinal completamente diferente daquela das crianças no mundo ocidental. Os bebês alimentados com o leite materno apresentam uma microbiota de estreptococos e estafilococos para ácido láctico no seu intestino enquanto que as crianças alimentadas com mamadeira possuem uma quantidade muito maior de organismos.

No Brasil, cerca de 16% dos méis de abelhas estão contaminados com bactérias Clostridium botulinum (causadora do botulismo). Se uma pessoa com idade acima de um ano ingerir o mel contendo a bactéria não desenvolverá enfermidade, pois tem uma grande quantidade de microorganismos opositores que a protegem. Para uma criança com idade inferior, que não teve contato com as bactérias protetoras, o Clostridium que secreta a toxina botulínica, pode até causar–lhe a morte.

As condições ecológicas e fisiológicas locais são quem determinam a natureza da microbiota. Essas situações incluem a quantidade e o tipo de nutrientes disponíveis, pH, potencial de óxido–redução, resistência a substâncias antibacterianas locais como bile, lisozima e afinidade por tipos específicos de células epiteliais (sítios de interação).

Tudo que estiver em contato com o ambiente tem uma microbiota normal e esta, quando implantada no corpo humano, na maioria das vezes, não causa distúrbios à saúde, são simbióticas e por isso, beneficiam o organismo.

Estima–se que os seres humanos possuam aproximadamente 1013 células no organismo e algo como 1014 bactérias associadas, a maioria das quais no intestino grosso. Vírus, fungos e protozoários também podem ser regularmente encontrados em indivíduos saudáveis, embora como constituintes menores da população total de organismos residentes.

Algumas destas espécies são benéficas ao hospedeiro e sua importância é muitas vezes revelada de maneira dramática sob condições antibioticoterapia rigorosa. Embora não seja possível eliminar a microbiota normal da pele ou do intestino, antibióticos podem reduzir drasticamente esta microbiota a um número mínimo de organismos. O hospedeiro, em conseqüência, pode ser invadido por patógenos introduzidos ou pelo supercrescimento de organismos normalmente presentes em pequenas quantidades.

Portanto, é importante para o estudante da área de saúde, especialmente o de medicina, ter uma boa compreensão do papel executado pela microbiota normal, por causa do seu duplo significado: como mecanismo de defesa contra infecções e como fonte de microorganismos potencialmente patogênicos (por mudança de sítio ou habitat). É importante também, conhecer a composição de cada sítio ou local para evitar confusão entre membros da microbiota normal e organismos específicos patogênicos, quando da interpretação de resultados laboratoriais.

Muitas bactérias, particularmente as anaeróbias, que não crescem na presença de oxigênio, são fundamentais para a espécie humana, sendo responsáveis pela produção de substâncias nos intestinos muito importantes para a coagulação do sangue, formação do bolo fecal, além de proteção contra outras bactérias que podem causar enfermidade. Quando se elimina a chamada microbiota normal, fica–se mais suscetível a adquirir infecções por bactérias, fungos e vírus, denominados oportunistas. Alguns microorganismos coliformes que vivem no trato intestinal produzem vitaminas do complexo B, assim como também possuem ação de proteção contra o ataque de organismos patogênicos.

3 – Definições:

3.1 – Microbiota Bacteriana – o conjunto de bactérias que existe normalmente em certos órgãos e cavidades naturais do organismo é denominado de microbiota bacteriana. Conforme visto, logo após o nascimento, a criança recebe as primeiras bactérias que dão início à formação de sua microbiota normal, sendo distribuídas por várias regiões do corpo, estando em contato com o meio externo, como pele, cavidade oral e vias aéreas superiores, aparelho digestório, vagina, uretra anterior, conjuntiva e ouvido. Cada uma das regiões habitadas possui uma microbiota com características próprias, demonstrando à não uniformidade quanto à quantidade e qualidade.

Maceió, Junho de 2.009.

Mário Jorge Martins.

 

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